quarta-feira, 3 de março de 2010

O soneto torto de Itabira

Deixe a montanha aí rapaz
que o galo canta
o sol se encanta
e meus olhos choram de tanta poesia

Deixe a montanha aí rapaz
que elas me abraçam
e formam um arco
que como um laço protege a cidade de Itabira

Na casa de Drummond
o cheiro de prosa
o jardim de Marílis
e a passagem secreta do sótão
a antiga sala de jantar
a antiga correria...

Um sorriso por esse cheiro de mato
uma lágrima pela locomotiva a jato
que num minuto leva Itabira nas costas
suas montanhas, mas também seu coração

Por isso fugiu o poeta
pois lhe roubaram a sua canção
a gentalha do ferro faz maquinas
que não possuem o dom da criação

Na rua de pedras
envolvem-me os casarões
ouço o sino Elias
Anunciando as mais belas procissões

Silêncio...

As nuvens correm agora
como correu o poeta

Deixe a montanha aí rapaz
que o que se leva de Itabira
é só o amor
o cheiro de mato

É tudo de graça
como tu já levaste a esperança
daqui só se leva poesia
que de tudo, é a mais bela lembrança.




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Poesia para a lindíssima cidade de Itabira, fevereiro de 2010.
Sentados sob ferro, manta de cor vermelha, o sangue derramado da natureza em pedaços. O homem se ilude ao pensar que pode destruir algo que ele não criou e ficar por isso mesmo.
E assistindo ao belíssimo nascer do sol, me disse " Isso acontece todo dia... e ninguém se dá conta... e é de graça."


R.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Soneto das mãos atadas ( Ou soneto de futura fidelidade)

De tudo, ao teu amor serei o calar
Antes, como tu me pedistes, e sempre
Que mesmo em face da omissão do que se sente
Nele seja mais bonito o meu sonhar

E por querê-lo em cada vão momento
E em desespero espalhei meu pranto
No beijo que foi dado, na moça sem encanto
Pois meus lábios só em ti encontrariam o contentamento

E assim, por mais tarde que me procures
Quem sabe embaixo de teus lençóis, neste emaranhar
Quem sabe as mãos, buscando o que ainda não tem

Eu sei que irão se encontrar
E que esta noite não seja imortal, pois o sol aí vem
Mas que seja infinita enquanto dure

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Um brinde ao plágio! Ou seria uma homenagem?


Vai saber...


Ps: Para a princesa do palácio de cristal.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Noronha ( Paraíso em alto mar )

A mulher aqui é maciça, petrificada
Nas curvas perfeitas das montanhas e das enseadas
As ondas banham suas coxas de areia
Seus cabelos de pedra, sua pele em folhas!
Folhas que sombreiam este costear...

Ah, que bela dama!
Esse sol te clama, meu amor é chama por teu acalentar.
As brisas que acariciam, percorrem teu corpo
Rochoso, maciço, que como o farol
Ilumina as docas e o cais do porto.

Ah, Nonô
Vêm de longe todos os homens pra te admirar
Te tocar, percorrer tuas praias
Em teu seio repousar

Mas de todos, sou eu o mais apaixonado!
Ao ver teu pôr-do-sol na baía
Me sinto completo, imaculado.

E num fechar de olhos, entrego-me a tua vontade
Leva-me pra onde quiser, que sou teu
Nesse pedaço de paraíso, para a eternidade!



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Poema escrito em homenagem a Fernando de Noronha, durante minha estadia
nequela ilha paradisíaca, maravilhosa.
Dezembro de 2009.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ano novo (Tudo de novo outra vez).

Primeira escrita de 2010. Estou meio atordoado, devem ser umas 4 da manha. É o primeiro cigarro do ano, cigarro que eu trago, não vejo, não seguro entre os dedos. A verdade é que eu nunca consegui fumar um maldito cigarro em toda a minha vida sem tossir, eu odeio o cheiro, a fumaça, a sensação, o gosto... e só porque seria o momento perfeito pra isso, ele está aqui agora, no meu imaginário, apaziguando-me. O pessoal esta curtindo a festa no apartamento, mas eu precisava de um tempo só, escrever. Minha mão começa a tremer quando fica muito tempo sem pegar na caneta, parece cocaína. A passagem do ano foi boa, cantamos muito, corremos de mãos dadas na praia, formando um grande paredão humano, eu catei pedrinhas, dançamos, bebemos..é o primeiro dia do ano. O maldito primeiro dia do ano e eu beijei a ultima pessoa que minha razão implorava para não beijar. Ela veio sorrateiro, no escuro, eu só fui até o quarto pegar meu caderno, este mesmo aqui, que escrevo. E ela apareceu. A escuridão confundiu-me um pouco, a princípio, mas logo ela me tocou o rosto e reconheci. A mesma pele, o mesmo toque, um cheiro um pouco diferente... talvez dos outros corpos aos quais ela já se misturou desde que eu disse adeus, até, essas coisas.... mas o mesmo olhar. O mesmo olhar inquieto, que quer gritar, mas não grita. Ela tentou me beijar, recuei. Queria não beijar ninguém, estava tudo confuso em minha mente, queria encontrar alguém que me acalmasse, que não me desse arrepios ao se aproximar.. ela se desculpou. Nos olhamos, ela me tocou, o mesmo toque. O álcool, culpa dele, culpa desses 7 meses que amei-a mais que a própria vida, culpa das suas lagrimas que não conseguem correr, estagnadas.. culpados, eternamente culpados. Puxei-a, nos beijamos... tudo de novo outra vez. A mesma boca. Ela me disse “saudades” e me abraçou. Eu quase nos deixo cair...talvez, eu sinto que. Ela fala. Eu não digo uma palavra, eu já havia dito tanto, e nada havia adiantado, eu era apenas cansaço...beijei-a por cansaço, cansei de lutar, relutar, pedir explicações, ouvir desculpas. Cansei do papo chato e hipócrita, das mentiras, das brigas, dos discursos. Eu era só silencio. Ela perguntou se eu voltada, balancei a cabeça numa dúvida. Ela pediu “volta sim, precisamos conversar, volta”. Eu balancei a cabeça, afirmando, mas estou cansado de falar.. queria apenas esquecer, deixa pra lá... mas ela não, então ela disse que me amava... ela diz que ama...


não respondi, não consigo, não sei. Eu era só silencio. Então ela se assustou com a luz que acendeu no corredor, e eu vi. Vi o mesmo medo, a mesma fraqueza, a mesma carência, a mesma tormenta. De não saber quem é ou pra onde ir.. e disso estou farta, e vi que nada havia mudado, era o mesmo, tudo de novo outra vez. Eu precisava descer, apenas. Beber, sentir o vento um pouco. As ruas cheiram a mijo. Gosto de ficar só, escrever. Queria uma máquina que digitasse todos os meus pensamentos, são muitos, a mão não acompanha, então esqueço-me. Eu só quero dormir agora, apagar, fugir... quero que ela me esqueça, que acabe, quero vida nova, estou cansado. De palavras, palavras não adiantam mais. Nunca adiantaram. Eu quero o silencio, quero olhar pra dentro e ver se aprendo alguma coisa, e enxergar o mundo. Estou com fome. Eu quero viver. Viver no meu mais profundo calar.
PS: Veja meu estado, caro amigo...bebo champanhe em uma taça de plástico, na outra taça, bebo boêmia preta. Álcool... só não é pior do que as mulheres. Feliz ano novo.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O conto da tinta sobre o papel

“ Posso te contar um segredo? A paixão é que nem um desenho em aquarela. Há anseio de vê-lo pronto, consumado. Mas, com paciência esperam os melhores artistas, pintando de leve a cor das montanhas e do céu. Há anseio em jogar a tinta, preencher logo todo o papel, mas os que esperam, fazem uma base mais firme, suave.
Como a paixão, a aquarela fica borrada se não esperamos secar, fora de foco. É preciso manter o foco para não perder a cabeça, e não botar o pincel no lugar errado, e acabar borrando o desenho. As vezes é difícil controlar, usamos agua demais e acabamos manchando tudo. Ou ficamos sem paciência e deixamos o desenho pela metade. Mas os sábios artistas esperam... por mais longa e dolorosa que seja essa espera, e por mais que a pintura leve tempos para ficar pronta... porque só assim se faz uma obra prima.
As camadas só são preenchidas ao longo do tempo, e então vai tomando forma, cor, beleza. Até ficarmos satisfeitos e darmos o trabalho por terminado (até segunda ordem, pois esse não termina nunca). Eu fico triste por aqueles que acham que acaba por aí, que a pintura não tem vida, sentimentos... sinto-me inteiramente responsável por aquilo que cativo..por aquilo que crio... Não adianta depois de trabalhar tão duro, guardar a tela no armário, se não ela perde a cor, resseca, racha. Eu sempre escolho o melhor lugar da casa ( e do coração) para o meu quadro. Passo, e dou um beijo, orgulho-me e sorrio.
Sorrio...
Ora, acho que já falei demais.. agora tenho de ir.. pois preciso me dedicar a uma certa aquarela...”

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Um conto, uma carta.


Obs: Sou péssima para colocar títulos...