quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ao longo das estações

Na primeira vez que te encontrei
Eu lhe dei uma flor
Uma rosa numa noite de lua clara
De frente pro mar

Na segunda vez que te encontrei
Eu lhe dei a saudade
Que eu sentira de amar e de olhar
Alguém nos olhos como te olhei

E assim foi
Nos encontramos muitas vezes
Ao longo das estações...

No inverno encontrei em ti o calor
Na primavera encontrei em ti
O desabrochar de um botão de amor
No verão encontrei em ti um ardor
O outono deu-nos da árvore, sua flor

E ao longo desses encontros
Me encontrei em ti e te achei e mim


...Silêncio...


Agora eu ouço o silêncio
O que aconteceu?

Tentei te encontrar, eu corri
Corri

Mas da última vez que te vi
Eu te perdi...

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Poema escrito na metade de 2009.
Bobinho, mas tá valendo.

Pra você, Palomar. Que sempre quis ver aqui algo em sua homenagem.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Palavra de Nêgo

Morena, morena
Dou-lhe esse aviso
Porque quem avisa, amigo é

Sou o negro da porteira
Macho cabresto
De rima na boca e samba no pé

Morena, morena
Na calada da noite
Ousaram na mata, te provar

Na floresta sem rimas
Sem estrela brilhante
Que ousara a cena iluminar

E não sabes, morena
Que meu coração só sente
Aquilo que não pode ver

Meu olfato aguçado
O cheiro de um cabra
Que agarrou em você

Que desculpa agora morena
Tu tens a me dar
Sou teu negro, mulata
E tu dizia me amar

Fica só agora, morena
Que vou sair ligeiro
A traição é de quem não aprendeu
A se entregar por inteiro

Da mata eu vim por teu seio
Pra mata agora vou voltar
Buscar no mundo, morena
Outra morena pra me fazer chorar


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Inspirado na música Regra Três de Vinícius de Moraes e Toquinho.
Pra quem não sabe, Regra três é a regra no futebol que permite a substituição de jogadores no decorrer da partida. Toquinho e Vinícius fazem alusão a esta regra, comparando o abuso do cara em substituir sua companheira pelas suas "reservas" no jogo do amor, no relacionamento.

Ahn.. agora sim!


R.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Click em preto e branco

É isso aí. Agora a gente tranca a porta pra ter mais privacidade. Seria inadmissível outros olhos a invadirem seu corpo, seu sorriso. Hoje ele é meu, somente meu.
Eu sei, o cheiro da tinta incomoda. Não adianta pedir, ninguém tem a decência de tirar os sapatos, sempre tenho que pintar o fundo de novo e de novo.. ao menos isso me mantem focada. É a única maneira de olhar para o infinito sem ficar divagando muito.
Eu vou ligar uma música pra você ficar mais a vontade, e eu também, acho. Na verdade tenho problemas com ansiedade. E além disso tenho problemas com seus olhos, eles sempre me deixam suando frio.
Fechar a cortina, ligar os refletores. Começamos a trabalhar, você fica surpresa porque são suas músicas preferidas tocando, isso ajuda. Mas você não sabe que eu sei todas as suas cem músicas preferidas, em ordem.
Primeira bateria completa, mais um rolo. Segunda completa, a primeira sessão está ok. Seu sorriso é lindo.
Eu esqueci o filme na outra sala, tenho que ir buscar. Você fica séria nessa hora, porque? Me olha como se pensasse em algo que não pude decifrar. Com licença, volto já.
Procuro, mas alguém mexeu no meu armário, mudaram meus filmes de lugar, tive que olhar na sala de armazenamento toda, quase acendi a luz da sala de ampliação e queimei todos os papéis. Estava ficado a beira de um ataque de nervos. Onde estava o maldito filme?
Armários, em baixo de mesas, gavetas, perguntei a todos no corredor e salas do andar. Nada. Droga, eu precisava terminar, faltavam as mais bonitas, as mais sutis, aquelas em que você confunde o fundo com a pele, os olhos destacados , o cabelo bem negro. Tento me recompor para entrar na sala novamente e te dar a notícia de que teríamos continuar outro dia. Você não iria gostar nada, tanta coisa pra fazer, tantos projetos, trabalhos, pessoas. Nem sei como você veio parar aqui, nem o que está fazendo aqui, como consegui isso. Angustia, é como se eu estivesse deixando a primeira dama esperando enquanto tento arranjar uma desculpa para minha desorganização. Inútil.
Mão na cabeça, de um lado pro outro, olha pra porta, volta, anda mais rápido, vira e revira, desculpas, ameaça, recua, e agora? Anda mais, mão no queixo, outra na cintura, olha pro chão, espera um milagre cair do céu, ele demora, desisto e abro a porta num impulso de desespero.
Paro.
Estagno.
Olhos congelados, boca, nuca, mão, respiração, corpo, alma.
Eu não sabia que você tinha topado fazer modelo nu também. Realmente não contava com isso. E agora? Eu não teria nem tempo de ter um ataque de nervos.
“ Eu... eu não sei onde eu botei o filme, eu...”
“ Feche a porta.”
É claro, que imprudência, fiquei ali, na inércia de um movimento travado correndo o risco de te expor, expor teu corpo a olhos que não são olhos de ver, que não te merecem. Tranco a porta, movimentos lentos, ainda abalados.
Vejo o chão, lentamente levanto o olhar, com medo de encontrar os teus. E gradualmente, tudo vai ficando em preto e branco.
Aquela música antiga, começa a tocar. É a gravação que fiz do meu vinil, sua bossinha favorita, eu sei. Também amo as palavras de Vinícius de Moraes.
Agora que não existem mais cores pra me distrair, vejo melhor os contrastes. Vejo você ali, no meio de todo aquele branco infinito, que na verdade fica tão próximo e pequeno perto da tua beleza.E vejo, algo preto se destacando, como uma caixinha.. como um...
Me aproximo sem acreditar, sinto aquilo tudo se dissolvendo, está no bolso do casaquinho de tecido leve que se esparrama sobre seus ombros, única peça de roupa no teu corpo.
Tão próximo que eu nem sei dizer o que está acontecendo. Sempre te olhei nos olhos, acho que agora pela primeira vez nos olhamos. Você tira do bolso o meu filme, sem desviar o olhar. Eu pego, volto pra mesa onde estava a câmera, ponho o filme dentro, me aproximo de novo, você ainda está séria. E seus olhos ficam lindos assim, expressivos. Essa é a minha foto.
O botão é apertado. A gente escuta o filme andando um pouco pro lado, dando vasão pra próxima foto. Te olho nos olhos através da lente, abaixo a câmera, nos olhamos pela segunda vez...


E eu não vou deixar registrado nesse conto o que acontece depois, porque todo artista gosta de incitar a imaginação dos seus apreciadores... e afinal de contas, é coisa pessoal nossa.

Click!

Ouço o filme rebobinar.


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R.

domingo, 25 de abril de 2010

Sonho em cinco estrofes

Sinto teu cheiro, que na pele impregnado
Traz a lembrança da noite, louca vontade
Que nos corpos se faz, no pensamento é consumado
Mas o medo não deixa, render-se a insanidade

No escuro, mãos são olhos de visão escassa
Perdidas, negando a entrega, contra ao toque tentando lutar
Faz-se rígida na coberta, e em frente a boca fracassa
E na ultima força sua, faz-se eminência do desejo matar

Num susto, a tua respiração, no pescoço um calor
A falta de ar, causa do abraço que fogo faz estremecer
Do consumar, causa a culpa secas lágrimas, em dor
O alívio e arrependimento de não o fazer

No acordar deste sonífero, com chuvas, o cuidado a se esvair
Cabelos emaranhados num sonho permanecem, e o frio vem deixar
A juventude e o esquecimento, por um fio o peito a se abrir
E sem travesseiro o coração perto, colado, a desistência o faz recuar

E o tempo nesse conto é mais nada que maldito
Que separa, a verdade esconde, nos engana na sobriedade
E tudo muda do que poderia aquilo ser escrito
E bêbados em amor por ele separados, para a eternidade


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Sem mais...

R.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Palavras de concretude ( uma carta à arquitetura)

"A arquitetura como uma carta, datada, de data sem importância, pois sua infinidade concreta expande-se de um historia passada, o agora vivo e um futuro intangível. Arquitetura como palavra, sua imortalidade concretizada, elevada do chão com suas raízes do imaginário de um sonhador. O concreto como lúdico, das frases que possuem entrelinhas e das portas que se abrem sem revelar o mistério de cada vão. E selada, e pronta, mas que pronta nunca há de estar, sempre existe uma palavra a mais, um canto a se aumentar, uma janela a se abrir. E que possamos abrir as janelas, sempre, que como prosa voam no ar, se espalham no vento e criam asas para alcançar a todos os olhos de ver....

E assim, que ao construirmos paredes, façamos não muros, e sim conexões. Que ao fecharmos janelas façamos um útero onde possamos renascer em nossa reflexão. Que cada risco seja um pedaço de sonho em giz, em formas que não quebram, que fluem e nos levam embora, a voar com elas. Que nossos pés nunca toquem o chão, flutuando acima deles, no piso das ideias. Que o teto seja estrelado, e que as portas nos levem a mais perguntas e não a uma solução. E que aquilo que nos enclausurava seja agora uma caixa de possibilidades. Que o verde seja parte de um todo, e não a parte que complementa. E que a arquitetura seja agora não como delimitar, mas sim como uma expansão... e que possa enfim, voar!”


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Umas palavrinhas em homenagem a esta arte magnífica, que quando feita pelas mãos de um verdadeiro artista, vira poesia concretizada.
A arquitetura é poesia concretizada!


R.