E sentada, entre as quatro paredes sem luz, esperou, e isso é tudo. E nada mais à narrar se não isto, a espera. Não soube por quanto tempo, nem quando decidiu por ali ficar. Talvez o orgulho a tenha impedido de falar e a melancolia de levantar-se e ir. Não ia há tempos, de verdade. Quando ia, ia pela metade, a outra arrasada, ainda esperando. E sorria quando ia, pela metade da boca, o resto dos dentes podres. E quando alguma lágrima caía, fingia espirrar ou corria ao banheiro, demorava-se. A metade já não era dela há tempos, descobriu. E não adiantava então tentar ir, sem ir de verdade, porque doía, e era dolorido esconder-se. Então resolveu esperar, e isso é tudo e tudo termina por aqui. E queria aprender a escrever sem vírgulas e ponto final, pegou no papel, no piano, mas em nada tocara porque sentada ali ficou, esperando, olhando de olhos fechados pra parede ou teto do escuro quarto. Wagner, dos dois falava em seus ouvidos e tentavam fazer com que a espera doesse mais, mas passasse mais rápido. Escoava como água a vigília por um sono forçado. E parava ali, hora deitada, hora sentada, entre pausas e convulsões, e infinitudes. Doída sem a outra parte que jazia longe talvez morta por não saber existir ali dentro a outra parte. Perdeu-se a conexão, o coração desfalecia no silêncio pelos olhos caídos que esperavam uma pulsação ou sinal de vida. Por fim cansada, nada ouviu do silêncio, nenhuma resposta. Decidiu então, ou já estava e não sabia, esperar. Não sabido era se um dia voltaria, quando, se resgataria a parte que não sabia ela como veio a descolar-se, terrivelmente descolar-se sem que lhe fosse avisado ou pedido, só descobrira assim, quando havia de esperar para que voltasse. E esperava, ali, sem nada a declarar, esperava então, somente.
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A espera de término, para sempre. (?)
sábado, 24 de setembro de 2011
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Um poema e dois pensamentos
Para Adélia
Desde aquele dia não escrevo
Ele roubou-me a inspiração, e tudo quanto havia
Adélia me devolveu algumas palavras
Tentaram elas me livrar do tédio, agonia
Se ao menos servisse para alguma coisa
Pra trazer você pra perto de mim
Minhas palavras não têm asas
Não têm vassoura de bruxa atravessando a lua cheia sem fim
Desfaço-me das rimas
Como desfaço-me das roupas
Que não são de veludo, nem de cetim
E despida de tudo o que era antes
Deito-me (só) como mulher
Que a poetisa me ensinou a ser, enfim.
----------
Um
“Antes, os ouvidos me ouviam assim:
Dá-me licença, eu quero passar
E passava (sempre) com o nariz empinado
Sem tocar em nada, pegadas na neve
Agora, os ouvidos me ouvem assim:
Dá-me licença, eu quero amar
E amo (sempre) olhando pra baixo
Sem tocar no chão, pegadas no céu.”
----------
Dois
“Você não sabe escrever, ser poeta.
As palavras engasgam, porque os sentimentos não estão acostumados a sair.
E sentimento, meu amigo, é encalço da palavra.
Melhor assim, que só eu consigo ler as tuas poesias, que saltam dos olhos quando você fica mudo.
A tua poesia é linda, e é minha, já que só eu consigo decifrá-la.
Não se preocupe. Deixe que eu cuide dela pra você.”
----------
"O que a memória ama, fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível."
Adélia Prado
Desde aquele dia não escrevo
Ele roubou-me a inspiração, e tudo quanto havia
Adélia me devolveu algumas palavras
Tentaram elas me livrar do tédio, agonia
Se ao menos servisse para alguma coisa
Pra trazer você pra perto de mim
Minhas palavras não têm asas
Não têm vassoura de bruxa atravessando a lua cheia sem fim
Desfaço-me das rimas
Como desfaço-me das roupas
Que não são de veludo, nem de cetim
E despida de tudo o que era antes
Deito-me (só) como mulher
Que a poetisa me ensinou a ser, enfim.
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Um
“Antes, os ouvidos me ouviam assim:
Dá-me licença, eu quero passar
E passava (sempre) com o nariz empinado
Sem tocar em nada, pegadas na neve
Agora, os ouvidos me ouvem assim:
Dá-me licença, eu quero amar
E amo (sempre) olhando pra baixo
Sem tocar no chão, pegadas no céu.”
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Dois
“Você não sabe escrever, ser poeta.
As palavras engasgam, porque os sentimentos não estão acostumados a sair.
E sentimento, meu amigo, é encalço da palavra.
Melhor assim, que só eu consigo ler as tuas poesias, que saltam dos olhos quando você fica mudo.
A tua poesia é linda, e é minha, já que só eu consigo decifrá-la.
Não se preocupe. Deixe que eu cuide dela pra você.”
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"O que a memória ama, fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível."
Adélia Prado
sábado, 28 de agosto de 2010
As três fases da água
1)Sólido.
Lá se foi o seu último cigarro. Ela o apagou em sua própria mão, e de praxe, nada sentiu. Agora era apenas mais uma cicatriz, pensava em começar a colecionar cicatrizes, já tinha aos montes. Uma semana havia se passado. Eles beberam demasiado, conheceram pessoas, e queriam tudo ou nada, queriam assim, o desprendimento, absoluto. Um não sabendo do outro, ligados apenas por um fio tênue desenhado pelas mãos de alguém que controla coisas, coisas que estão escritas (ou desenhadas) e não podem ser mudadas. E como descrito por essa mão, hoje se encontraram. E em seu quarto, ele perguntando sua idade, que ela não respondia. E ele dizia então que até o fim da noite ela irá lhe contar. E depois, concordaram em se separar, afinal de contas, eles têm essa consciência do todo, dos olhares curiosos, das bocas que falam, sem saber, das línguas frenéticas. Mas antes, no quarto do hotel, aquele velho rock'n'roll que ela não deveria conhecer, por conta da idade, mas conhecia, por conta da vida, claro. E diziam coisas, os dois. Não bonitas, não românticas, mas não ordinárias, que se espera dizer. Diziam coisas a toa, coisas simples, coisas que se completavam. Os corpos se completavam, as bocas se completavam, as falas, as línguas, se completavam. Porque foram embora? Para estragar tudo, apenas. Ou talvez para salvar aquilo que não sabiam, um dia viria. Tinham um certo medo, medo dos outros, dos pensamentos, dos sentimentos, da bebida, da ressaca, e amanhã? Será que ele continuaria gostando das músicas dela? Será que ela continuaria a ser a melhor trilha sonora da viagem? O olhar da manhã, tinham medo do olhar ordinário da manhã. Ela voltou da festa a pé, sem frio, mas no frio das ruas curitibanas, procurava nas esquinas algo pra preencher aquele vazio de um buraco há muito fechado, e irritava-se em pensar que talvez ele fora novamente aberto, expondo todas aquelas pedras. Sentada na cadeira do hotel, ela escrevia ironicamente enquanto imaginava-o batendo a porta, bêbado, sorrindo, contrastando com pedaços translúcidos que rolavam em seu rosto, ela sonhou um sonho bom. E pensou que era melhor dormir. Então um barulho de porta de carro batendo. Ela olhou pela janela e viu que não era um taxi, mas sim uma espécie de ambulância. Botando a cara pra fora gritou “ me levem!” mas ninguém a escutou. Ela precisava que a levassem dali, daquele hospício que era sua própria mente. Porque eles foram embora mesmo? Ela se perguntou se foi o medo. É sempre o maldito medo que estraga suas noites. E ao invés de ficar com os sorrisos, com a pele, com o suor, fica com as garrafas, que depois de vazias, ficam assim, solitárias, tão quietas... e o silêncio a faz entrar em desespero, não agüentava mais o silêncio. A carne gritava por outra carne, pelo toque. Não decifrou se era culpa do álcool, ou de algo que nem ela sabia explicar. Botou aquela música pra tocar... aquela de quando se beijaram, antes dela falar francês, antes dela sumir, antes dela ver aquilo que não queria ter visto, antes dela...
E olhou em volta em seu devaneio, e achou esquisito... “Porque é mesmo que você não esta aqui?”.
Essas foram suas palavras em caneta e papel.
2)Líquido.
Um gosto seco inundava as bocas. E eles se olhavam, embaraçados, sem saber ao certo o que dizer. Flores verdes nas paredes, e nada daquele quarto combinava. Tudo assim, parecendo em ordem, mas fora do lugar. Decidiram que não sabiam o que viria então, e que tudo o que poderiam fazer era tecer aquilo que eles queriam que fosse, e não o que deveria ser, por pura convenção. E quem disse o que deveríamos fazer e onde deveríamos? Decidiram, sem nada dizer, em seu silêncio cúmplice. O segredo um do outro. E foi naquele dia então, que deu-se o reencontro. E beberam um do outro, tecendo a noite da forma que lhes convinha. “ É bom poder dizer as coisas assim, tirando a máscara” ela dizia, respirando liberdade que só poderia encontrar ali, trancada num quarto, com um desconhecido. E ele, que também mal a conhecia, não usava mais fantasias, nem pernas de pau para ficar maior. O tamanho dos dois era gigantesco, e não cabia entre as quatro paredes, que observavam assustadas, estranhando o comportamento dos dois. E riram daquilo tudo, e não entendiam porque se entendiam tanto. E entre palavras que se completavam, momentos silenciosos. Mas silêncio que não dava angústia, silêncio bom, de plenitude. E se olhavam no espelho, abraçados, ela dizia que formavam um belo casal, ele ria e concordava. Algumas vezes ela ficava distante, ele percebia. Algumas vezes alguém se deixava invadir pelo medo daquilo que não sabiam se estava por vir. Algumas vezes alguém se deixava invadir pela entrega. Algumas vezes alguém caia no sono, e despertava em seguida. E entre o sono e o alerta, afogavam-se naquele mar apenas dos dois, não sabendo se era temporário ou não. Não queriam saber. E pularam na cama sem molas, e riram por isso. E tentaram dançar alguma música que só eles puderam ouvir. E comeram algo qualquer enquanto falavam canastrices e não apreciavam a comida. E beijaram as costas um do outro, contando as estrelas que pintavam o céu de cada pele cansada, cansada de tudo o que veio antes daquele momento, até então. E as estrelas começaram a brilhar outra vez, solenes, mas renovadas, aos poucos recuperando o brilho. E falaram de coisas abstratas, entendíveis para os dois, somente. Coisas nunca antes ditas daquela forma, pela falta de compreensão dos ouvidos aos quais eram ditas até então. E ele perguntou novamente, e por vezes a idade dela. E por vezes ela disse coisas que o levou a mundos mais distantes e importantes, onde o tempo não tem vez, nem pressa. E entre os risos, beijos, olhares, silêncios, degustações, lembranças, confissões, eles se perderam. Aquele mar de dois. E cada um múltiplo em si mesmo, inundando um ao outro, invadindo com ondas que assustam, mas acalmam. Cada um sendo para o outro um farol, um porto seguro, um eco. E se olharam nos olhos, pelo espelho, e não sabiam o porquê sorriam. Por diversas vezes ela dizia que deveriam ir, era hora. O mundo lá fora gritava, precisavam voltar à realidade. Era cedo, ele dizia, havia tempo, precisavam provar ainda mais um do outro, o gosto era indescritível, diferente de tudo já provado. Como se postergar fosse tornar aquela noite eterna. E quando tomaram coragem, viram que era dia. E era tarde, e um desespero tomou conta dos dois. Medo de voltar à superfície, medo de não se afogar novamente naquele oceano. E saíram de lá, novamente embaraçados. E os olhos doeram por causa do sol. E no caminho até a casa dela, foi crescendo aquela interrogação no peito de cada um. Nunca entenderiam, e amariam para sempre aquela noite. Ele parou em frente ao prédio. Ela saiu do carro, relutou, voltou-se para ele e exclamou pausadamente “mil novecentos e noventa e um”. Ela fechou a porta, e tentou ainda rir, não fazer muito drama, porque ela não acreditava naquele drama. Ela não acreditava no tempo. Ela o viu assustado, e desejou que ele também fosse descrente. Cada um foi embora, novamente, com aquilo tudo escorrendo entre os dedos, de volta a superfície, mas eternamente afogados.
3)Gasoso
Olhavam para o mar agora. Do qual haviam saído há muito, mas nunca deveriam tê-lo feito. A água secou. E não sabiam se aquele seria o começo ou o fim do que estava por vir. Os olhares evitaram se encontrar, perdidos ainda nos desencontros do tempo que passou desde a última noite. Dos desentendimentos, das saudades, das pequenas frustrações. Ela pensava que era tudo mentira, ele não conseguia acreditar, nem saber o porquê. Ambos estranhavam o próprio comportamento, e o próprio fato de estarem ali. Ela ainda rígida, ele por vezes beijava seu ombro, enquanto dizia coisas embaraçadas. Ela abriu o vinho, que esperou tempos para ser bebido pelos dois. E beberam da mesma taça, misturando as salivas ainda de uma forma distante. E com o passar dos minutos, as palavras ditas foram sublimando a tensão, as dores, as preocupações e os porquês. O vinho diluiu as últimas pedrinhas de dúvidas. E como num sopro de um gigante, o céu se abriu acima deles por alguns instantes, mostrando as estrelas, e eles se lembraram das costas estreladas que beijaram, as costas que tinham começado a brilhar novamente. A lua resolveu aparecer por um momento, para ser a testemunha daquela noite, caso um dos dois resolvesse negar posteriormente que tudo tinha sido apenas um sonho. “Sabe que eu não posso me apaixonar por você né?” , “ Sabe que eu não posso apaixonar por você né?” ela responde, com a mesma pergunta, porque era o medo e o prazer dos dois. E então trocaram salivas novamente, mas sem taça, nem vinho. E andaram pela areia, pisando em estrelas, que brilhavam ao toque dos pés, e pensaram que era magia, ela viu-se bruxa, ele viu-se enfeitiçado. “Porque a areia brilha?”. Jamais entenderiam que era para iluminá-los, quando duvidassem daquilo que deveria ser. E mais tarde, nus. E mais tarde, ele com frio, ela molhada de mar, sentiram aquela liberdade novamente. E ainda mais tarde a pizza, o quarto, os desenhos que refletiam ela nele, os vinis, a pintura na parede. E sabiam que nada mais era tão duro, pois as noites dissolveram aqueles medos maiores, e que nada mais poderia escorrer entre os dedos, pois eles tinham tudo ali, envolta deles, flutuando. E todos aqueles encontros de almas ainda mais evidente, e todos aqueles passados que se cruzavam em determinado ponto, e todas as coincidências, e as mesmas alegorias, e todos os toques, os risos, os desesperos... tudo virou fumaça. E já não estava mais no controle de cada um, e não sabiam se isso era bom ou ruim. Porque tudo então foi lançado no ar, como para o universo. E tudo o que acontecera até então virou poeira que agora eles respiravam, que contaminava o ar. Poeira da brisa do mar da outra noite. Eles sabiam que algo começava a surgir, e assustava. Porque não era visível aos olhos, e nem palpável as mãos.
E o conto começa assim, onde termina. E este nunca há de acabar.
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Para você. Em agradecimento as três noites imemoriáveis. E quem sabe, as mil e uma noites, que ainda hão de vir...
R.L.
Lá se foi o seu último cigarro. Ela o apagou em sua própria mão, e de praxe, nada sentiu. Agora era apenas mais uma cicatriz, pensava em começar a colecionar cicatrizes, já tinha aos montes. Uma semana havia se passado. Eles beberam demasiado, conheceram pessoas, e queriam tudo ou nada, queriam assim, o desprendimento, absoluto. Um não sabendo do outro, ligados apenas por um fio tênue desenhado pelas mãos de alguém que controla coisas, coisas que estão escritas (ou desenhadas) e não podem ser mudadas. E como descrito por essa mão, hoje se encontraram. E em seu quarto, ele perguntando sua idade, que ela não respondia. E ele dizia então que até o fim da noite ela irá lhe contar. E depois, concordaram em se separar, afinal de contas, eles têm essa consciência do todo, dos olhares curiosos, das bocas que falam, sem saber, das línguas frenéticas. Mas antes, no quarto do hotel, aquele velho rock'n'roll que ela não deveria conhecer, por conta da idade, mas conhecia, por conta da vida, claro. E diziam coisas, os dois. Não bonitas, não românticas, mas não ordinárias, que se espera dizer. Diziam coisas a toa, coisas simples, coisas que se completavam. Os corpos se completavam, as bocas se completavam, as falas, as línguas, se completavam. Porque foram embora? Para estragar tudo, apenas. Ou talvez para salvar aquilo que não sabiam, um dia viria. Tinham um certo medo, medo dos outros, dos pensamentos, dos sentimentos, da bebida, da ressaca, e amanhã? Será que ele continuaria gostando das músicas dela? Será que ela continuaria a ser a melhor trilha sonora da viagem? O olhar da manhã, tinham medo do olhar ordinário da manhã. Ela voltou da festa a pé, sem frio, mas no frio das ruas curitibanas, procurava nas esquinas algo pra preencher aquele vazio de um buraco há muito fechado, e irritava-se em pensar que talvez ele fora novamente aberto, expondo todas aquelas pedras. Sentada na cadeira do hotel, ela escrevia ironicamente enquanto imaginava-o batendo a porta, bêbado, sorrindo, contrastando com pedaços translúcidos que rolavam em seu rosto, ela sonhou um sonho bom. E pensou que era melhor dormir. Então um barulho de porta de carro batendo. Ela olhou pela janela e viu que não era um taxi, mas sim uma espécie de ambulância. Botando a cara pra fora gritou “ me levem!” mas ninguém a escutou. Ela precisava que a levassem dali, daquele hospício que era sua própria mente. Porque eles foram embora mesmo? Ela se perguntou se foi o medo. É sempre o maldito medo que estraga suas noites. E ao invés de ficar com os sorrisos, com a pele, com o suor, fica com as garrafas, que depois de vazias, ficam assim, solitárias, tão quietas... e o silêncio a faz entrar em desespero, não agüentava mais o silêncio. A carne gritava por outra carne, pelo toque. Não decifrou se era culpa do álcool, ou de algo que nem ela sabia explicar. Botou aquela música pra tocar... aquela de quando se beijaram, antes dela falar francês, antes dela sumir, antes dela ver aquilo que não queria ter visto, antes dela...
E olhou em volta em seu devaneio, e achou esquisito... “Porque é mesmo que você não esta aqui?”.
Essas foram suas palavras em caneta e papel.
2)Líquido.
Um gosto seco inundava as bocas. E eles se olhavam, embaraçados, sem saber ao certo o que dizer. Flores verdes nas paredes, e nada daquele quarto combinava. Tudo assim, parecendo em ordem, mas fora do lugar. Decidiram que não sabiam o que viria então, e que tudo o que poderiam fazer era tecer aquilo que eles queriam que fosse, e não o que deveria ser, por pura convenção. E quem disse o que deveríamos fazer e onde deveríamos? Decidiram, sem nada dizer, em seu silêncio cúmplice. O segredo um do outro. E foi naquele dia então, que deu-se o reencontro. E beberam um do outro, tecendo a noite da forma que lhes convinha. “ É bom poder dizer as coisas assim, tirando a máscara” ela dizia, respirando liberdade que só poderia encontrar ali, trancada num quarto, com um desconhecido. E ele, que também mal a conhecia, não usava mais fantasias, nem pernas de pau para ficar maior. O tamanho dos dois era gigantesco, e não cabia entre as quatro paredes, que observavam assustadas, estranhando o comportamento dos dois. E riram daquilo tudo, e não entendiam porque se entendiam tanto. E entre palavras que se completavam, momentos silenciosos. Mas silêncio que não dava angústia, silêncio bom, de plenitude. E se olhavam no espelho, abraçados, ela dizia que formavam um belo casal, ele ria e concordava. Algumas vezes ela ficava distante, ele percebia. Algumas vezes alguém se deixava invadir pelo medo daquilo que não sabiam se estava por vir. Algumas vezes alguém se deixava invadir pela entrega. Algumas vezes alguém caia no sono, e despertava em seguida. E entre o sono e o alerta, afogavam-se naquele mar apenas dos dois, não sabendo se era temporário ou não. Não queriam saber. E pularam na cama sem molas, e riram por isso. E tentaram dançar alguma música que só eles puderam ouvir. E comeram algo qualquer enquanto falavam canastrices e não apreciavam a comida. E beijaram as costas um do outro, contando as estrelas que pintavam o céu de cada pele cansada, cansada de tudo o que veio antes daquele momento, até então. E as estrelas começaram a brilhar outra vez, solenes, mas renovadas, aos poucos recuperando o brilho. E falaram de coisas abstratas, entendíveis para os dois, somente. Coisas nunca antes ditas daquela forma, pela falta de compreensão dos ouvidos aos quais eram ditas até então. E ele perguntou novamente, e por vezes a idade dela. E por vezes ela disse coisas que o levou a mundos mais distantes e importantes, onde o tempo não tem vez, nem pressa. E entre os risos, beijos, olhares, silêncios, degustações, lembranças, confissões, eles se perderam. Aquele mar de dois. E cada um múltiplo em si mesmo, inundando um ao outro, invadindo com ondas que assustam, mas acalmam. Cada um sendo para o outro um farol, um porto seguro, um eco. E se olharam nos olhos, pelo espelho, e não sabiam o porquê sorriam. Por diversas vezes ela dizia que deveriam ir, era hora. O mundo lá fora gritava, precisavam voltar à realidade. Era cedo, ele dizia, havia tempo, precisavam provar ainda mais um do outro, o gosto era indescritível, diferente de tudo já provado. Como se postergar fosse tornar aquela noite eterna. E quando tomaram coragem, viram que era dia. E era tarde, e um desespero tomou conta dos dois. Medo de voltar à superfície, medo de não se afogar novamente naquele oceano. E saíram de lá, novamente embaraçados. E os olhos doeram por causa do sol. E no caminho até a casa dela, foi crescendo aquela interrogação no peito de cada um. Nunca entenderiam, e amariam para sempre aquela noite. Ele parou em frente ao prédio. Ela saiu do carro, relutou, voltou-se para ele e exclamou pausadamente “mil novecentos e noventa e um”. Ela fechou a porta, e tentou ainda rir, não fazer muito drama, porque ela não acreditava naquele drama. Ela não acreditava no tempo. Ela o viu assustado, e desejou que ele também fosse descrente. Cada um foi embora, novamente, com aquilo tudo escorrendo entre os dedos, de volta a superfície, mas eternamente afogados.
3)Gasoso
Olhavam para o mar agora. Do qual haviam saído há muito, mas nunca deveriam tê-lo feito. A água secou. E não sabiam se aquele seria o começo ou o fim do que estava por vir. Os olhares evitaram se encontrar, perdidos ainda nos desencontros do tempo que passou desde a última noite. Dos desentendimentos, das saudades, das pequenas frustrações. Ela pensava que era tudo mentira, ele não conseguia acreditar, nem saber o porquê. Ambos estranhavam o próprio comportamento, e o próprio fato de estarem ali. Ela ainda rígida, ele por vezes beijava seu ombro, enquanto dizia coisas embaraçadas. Ela abriu o vinho, que esperou tempos para ser bebido pelos dois. E beberam da mesma taça, misturando as salivas ainda de uma forma distante. E com o passar dos minutos, as palavras ditas foram sublimando a tensão, as dores, as preocupações e os porquês. O vinho diluiu as últimas pedrinhas de dúvidas. E como num sopro de um gigante, o céu se abriu acima deles por alguns instantes, mostrando as estrelas, e eles se lembraram das costas estreladas que beijaram, as costas que tinham começado a brilhar novamente. A lua resolveu aparecer por um momento, para ser a testemunha daquela noite, caso um dos dois resolvesse negar posteriormente que tudo tinha sido apenas um sonho. “Sabe que eu não posso me apaixonar por você né?” , “ Sabe que eu não posso apaixonar por você né?” ela responde, com a mesma pergunta, porque era o medo e o prazer dos dois. E então trocaram salivas novamente, mas sem taça, nem vinho. E andaram pela areia, pisando em estrelas, que brilhavam ao toque dos pés, e pensaram que era magia, ela viu-se bruxa, ele viu-se enfeitiçado. “Porque a areia brilha?”. Jamais entenderiam que era para iluminá-los, quando duvidassem daquilo que deveria ser. E mais tarde, nus. E mais tarde, ele com frio, ela molhada de mar, sentiram aquela liberdade novamente. E ainda mais tarde a pizza, o quarto, os desenhos que refletiam ela nele, os vinis, a pintura na parede. E sabiam que nada mais era tão duro, pois as noites dissolveram aqueles medos maiores, e que nada mais poderia escorrer entre os dedos, pois eles tinham tudo ali, envolta deles, flutuando. E todos aqueles encontros de almas ainda mais evidente, e todos aqueles passados que se cruzavam em determinado ponto, e todas as coincidências, e as mesmas alegorias, e todos os toques, os risos, os desesperos... tudo virou fumaça. E já não estava mais no controle de cada um, e não sabiam se isso era bom ou ruim. Porque tudo então foi lançado no ar, como para o universo. E tudo o que acontecera até então virou poeira que agora eles respiravam, que contaminava o ar. Poeira da brisa do mar da outra noite. Eles sabiam que algo começava a surgir, e assustava. Porque não era visível aos olhos, e nem palpável as mãos.
E o conto começa assim, onde termina. E este nunca há de acabar.
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Para você. Em agradecimento as três noites imemoriáveis. E quem sabe, as mil e uma noites, que ainda hão de vir...
R.L.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Carta ao Eco.
Esta carta é para alguém. Para alguém que entende o meu lirismo, as minhas palavras, a minha subta melancolia. Para aquele ( ou aquela) que com os olhos não me enxerga, assim, arrasada, mas que vê apenas uma alma, uma criança, um pequeno animal mistico. Essa carta é para aquele (ou aqueles, mas aí acho que já é pedir demais) que enxergam que acima de tudo, sou a felicidade, na expressão mais pura e inocente da palavra. Com os olhos de ver, vejo daqui o sol, envergonhado, atrás das nuvens, esperando todos ficarem em silêncio para ele poder se pôr. É sempre uma frustração...as pessoas desaprenderam o valor do silêncio (principalmente nos pôres do sol) , sua plenitude, sua infinidade. E em silêncio, olhando o mar, agora, escrevo. Não sei pra quem, apenas vomito esses pensamentos que não cabem e que. Chico Buarque canta “ a flor da pele” , e é isso o que ele não dá nome (pois não tem) que eu também sinto, e que todos aqueles sensíveis d'alma (como o meu remetente) sente, e não conseguem explicar...rotular. Pois é tao forte, aquilo que esta sempre conosco, grudado, mas que escorre entre os dedos e se evai quando tentamos pegá-lo. Aquilo que não pode ser pensado, nem sentido, nem falado... mas está em cada segundo na mente, no subconsciente, nas emoções, nas transpirações, nas entrelinhas... aquilo que é o ovo de Clarice Linspector, que é a metade de Oswald de Andrade, que é a poética de Drummond, que está no cigarro de Vinícius, no whisky de Tom, na voz de Elis, no meu sorriso. Porque toda vez que sorrio, com dentes de chumbo, ou de plumas, não sei porque sorrio. Ele simplesmente me vem, como uma onda. Fico pensando no futuro, as vezes. Será que um dia as pessoas saberão de minha existência e do meu trabalho? Ou serei um daqueles artistas que deixa a família rica depois de morto...e vão ler as minhas cartas, e irão vender os meus livros, e vão expor meus quadros e escutarão as minhas musicas... e não entenderão nada... e entenderão tudo. E sentirão pena...e...tristes..e felizes... e como eu, irão sorrir. Ou talvez, eu suma, afogada em alguma ilha deserta... ou no rio, submerso... e então os escafandristas virão explorar. E eles, mais evoluídos, essa futura civilização, que enxerga com olhos de ver. Saberão que não fui nada... absolutamente nada... e que fui tudo.. porque amei, só amei. E mais nada. E provavelmente essa carta é também para alguem que amo. Esse alguem desesperado, que na sua calma e plenitude, grita. Grita por um eco...eu sei o que é isso, Nietzsche também sabia: “eu queria um eco, mas só ouvi elogios”. Eu achava na minha mesquinharia e egoismo e egocentrismo que nunca existiriam ecos.. mas eles existem. Estão espalhados pelo mundo, só é um pouco difícil de achá-los, reconhecê-los. Ecos se escondem em máscaras ordinárias, nos túneis e cavernas... mas estão lá.. como eu compreendi Nietzsche (apesar de tarde demais), alguém me compreende. E por isso escrevo, para esse meu eco, que acima de me dizer elogios, cala, e em seu simples calar, me completa. Então, caro remetente, caríssimo ou caríssima, se estiver lendo esta carta, se leu até aqui, se riu ou se chorou, se sentiu alguma coisa, alguma angústia, alguma tristeza, felicidade, alguma troca , algum encontro... se você também vê esse mar, esse sol que se esconde, esse silêncio, se você sorriu... Saiba que encontrou um eco. Apenas um, dentre os milhares... mas eu existo, eles existem, você existe.. e somos ecos, infinitos, e você já pode sorrir. Não o sorriso ordinário, aquele de pose para fotografia.. mas sim o sorriso que simplesmente vem, invade, sem aviso, de dentro do peito, da boca pra fora, o que não tem mais jeito de dissimular, o que nem é direito de se recusar , o que não tem medida, nem nunca terá, o que não tem receita...
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Escrita que encontrei essa semana. Nem lembrava de tê-la produzido. Estava em um desses cadernos velhos e rabiscados, cheios de pensamentos.
Tenho a mania de escrever cartas, pra amigos, amores, conhecidos e desconhecidos.
O de praxe, folha amarelada, tinta nanquim preta de um bico de pena, a cera vermelha derretida, o pentagrama selado, e todo o meu lirismo.
Porém essa carta é diferente. Não tem remetente fixo, não tem receita. Se quiser, pode bebê-la, se embriagar.
Essa carta é pra todos vocês, meus ecos.
R.L.
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Escrita que encontrei essa semana. Nem lembrava de tê-la produzido. Estava em um desses cadernos velhos e rabiscados, cheios de pensamentos.
Tenho a mania de escrever cartas, pra amigos, amores, conhecidos e desconhecidos.
O de praxe, folha amarelada, tinta nanquim preta de um bico de pena, a cera vermelha derretida, o pentagrama selado, e todo o meu lirismo.
Porém essa carta é diferente. Não tem remetente fixo, não tem receita. Se quiser, pode bebê-la, se embriagar.
Essa carta é pra todos vocês, meus ecos.
R.L.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Movido a gás
Acabou a gasolina
Acabou o gás
Acho que não vamos mais rodar
Acabou o destilado
Acabou o engradado
Acho que não vamos mais tocar
Mas baby, meu avô sempre me ensinou
Que o show tem que continuar
E se tudo der errado
E se a música for um fracasso
Reserve
A sua mesa preferida num bar
O que você não sabe
É o quanto a gente ralou
Pra estar nesse palco
Ressuscitando a musica
Que você matou
O que você não entende
É que a gente precisa se virar
Pra compor algo decente
E que ainda faça
Você cantar
Acabou a gasolina
Acabou o gás
Acho que não vamos mais rodar
Acabou o destilado
Acabou o engradado
Acho que não vamos mais tocar
Mas baby, meu avô sempre me ensinou
Que o show tem que continuar
E se tudo der errado
E se a música for um fracasso
Reserve
A sua mesa preferida num bar...
Reserve
A sua mesa preferida num bar...
Acabou o gás
Acho que não vamos mais rodar
Acabou o destilado
Acabou o engradado
Acho que não vamos mais tocar
Mas baby, meu avô sempre me ensinou
Que o show tem que continuar
E se tudo der errado
E se a música for um fracasso
Reserve
A sua mesa preferida num bar
O que você não sabe
É o quanto a gente ralou
Pra estar nesse palco
Ressuscitando a musica
Que você matou
O que você não entende
É que a gente precisa se virar
Pra compor algo decente
E que ainda faça
Você cantar
Acabou a gasolina
Acabou o gás
Acho que não vamos mais rodar
Acabou o destilado
Acabou o engradado
Acho que não vamos mais tocar
Mas baby, meu avô sempre me ensinou
Que o show tem que continuar
E se tudo der errado
E se a música for um fracasso
Reserve
A sua mesa preferida num bar...
Reserve
A sua mesa preferida num bar...
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