sábado, 28 de agosto de 2010

As três fases da água

1)Sólido.

Lá se foi o seu último cigarro. Ela o apagou em sua própria mão, e de praxe, nada sentiu. Agora era apenas mais uma cicatriz, pensava em começar a colecionar cicatrizes, já tinha aos montes. Uma semana havia se passado. Eles beberam demasiado, conheceram pessoas, e queriam tudo ou nada, queriam assim, o desprendimento, absoluto. Um não sabendo do outro, ligados apenas por um fio tênue desenhado pelas mãos de alguém que controla coisas, coisas que estão escritas (ou desenhadas) e não podem ser mudadas. E como descrito por essa mão, hoje se encontraram. E em seu quarto, ele perguntando sua idade, que ela não respondia. E ele dizia então que até o fim da noite ela irá lhe contar. E depois, concordaram em se separar, afinal de contas, eles têm essa consciência do todo, dos olhares curiosos, das bocas que falam, sem saber, das línguas frenéticas. Mas antes, no quarto do hotel, aquele velho rock'n'roll que ela não deveria conhecer, por conta da idade, mas conhecia, por conta da vida, claro. E diziam coisas, os dois. Não bonitas, não românticas, mas não ordinárias, que se espera dizer. Diziam coisas a toa, coisas simples, coisas que se completavam. Os corpos se completavam, as bocas se completavam, as falas, as línguas, se completavam. Porque foram embora? Para estragar tudo, apenas. Ou talvez para salvar aquilo que não sabiam, um dia viria. Tinham um certo medo, medo dos outros, dos pensamentos, dos sentimentos, da bebida, da ressaca, e amanhã? Será que ele continuaria gostando das músicas dela? Será que ela continuaria a ser a melhor trilha sonora da viagem? O olhar da manhã, tinham medo do olhar ordinário da manhã. Ela voltou da festa a pé, sem frio, mas no frio das ruas curitibanas, procurava nas esquinas algo pra preencher aquele vazio de um buraco há muito fechado, e irritava-se em pensar que talvez ele fora novamente aberto, expondo todas aquelas pedras. Sentada na cadeira do hotel, ela escrevia ironicamente enquanto imaginava-o batendo a porta, bêbado, sorrindo, contrastando com pedaços translúcidos que rolavam em seu rosto, ela sonhou um sonho bom. E pensou que era melhor dormir. Então um barulho de porta de carro batendo. Ela olhou pela janela e viu que não era um taxi, mas sim uma espécie de ambulância. Botando a cara pra fora gritou “ me levem!” mas ninguém a escutou. Ela precisava que a levassem dali, daquele hospício que era sua própria mente. Porque eles foram embora mesmo? Ela se perguntou se foi o medo. É sempre o maldito medo que estraga suas noites. E ao invés de ficar com os sorrisos, com a pele, com o suor, fica com as garrafas, que depois de vazias, ficam assim, solitárias, tão quietas... e o silêncio a faz entrar em desespero, não agüentava mais o silêncio. A carne gritava por outra carne, pelo toque. Não decifrou se era culpa do álcool, ou de algo que nem ela sabia explicar. Botou aquela música pra tocar... aquela de quando se beijaram, antes dela falar francês, antes dela sumir, antes dela ver aquilo que não queria ter visto, antes dela...
E olhou em volta em seu devaneio, e achou esquisito... “Porque é mesmo que você não esta aqui?”.

Essas foram suas palavras em caneta e papel.



2)Líquido.

Um gosto seco inundava as bocas. E eles se olhavam, embaraçados, sem saber ao certo o que dizer. Flores verdes nas paredes, e nada daquele quarto combinava. Tudo assim, parecendo em ordem, mas fora do lugar. Decidiram que não sabiam o que viria então, e que tudo o que poderiam fazer era tecer aquilo que eles queriam que fosse, e não o que deveria ser, por pura convenção. E quem disse o que deveríamos fazer e onde deveríamos? Decidiram, sem nada dizer, em seu silêncio cúmplice. O segredo um do outro. E foi naquele dia então, que deu-se o reencontro. E beberam um do outro, tecendo a noite da forma que lhes convinha. “ É bom poder dizer as coisas assim, tirando a máscara” ela dizia, respirando liberdade que só poderia encontrar ali, trancada num quarto, com um desconhecido. E ele, que também mal a conhecia, não usava mais fantasias, nem pernas de pau para ficar maior. O tamanho dos dois era gigantesco, e não cabia entre as quatro paredes, que observavam assustadas, estranhando o comportamento dos dois. E riram daquilo tudo, e não entendiam porque se entendiam tanto. E entre palavras que se completavam, momentos silenciosos. Mas silêncio que não dava angústia, silêncio bom, de plenitude. E se olhavam no espelho, abraçados, ela dizia que formavam um belo casal, ele ria e concordava. Algumas vezes ela ficava distante, ele percebia. Algumas vezes alguém se deixava invadir pelo medo daquilo que não sabiam se estava por vir. Algumas vezes alguém se deixava invadir pela entrega. Algumas vezes alguém caia no sono, e despertava em seguida. E entre o sono e o alerta, afogavam-se naquele mar apenas dos dois, não sabendo se era temporário ou não. Não queriam saber. E pularam na cama sem molas, e riram por isso. E tentaram dançar alguma música que só eles puderam ouvir. E comeram algo qualquer enquanto falavam canastrices e não apreciavam a comida. E beijaram as costas um do outro, contando as estrelas que pintavam o céu de cada pele cansada, cansada de tudo o que veio antes daquele momento, até então. E as estrelas começaram a brilhar outra vez, solenes, mas renovadas, aos poucos recuperando o brilho. E falaram de coisas abstratas, entendíveis para os dois, somente. Coisas nunca antes ditas daquela forma, pela falta de compreensão dos ouvidos aos quais eram ditas até então. E ele perguntou novamente, e por vezes a idade dela. E por vezes ela disse coisas que o levou a mundos mais distantes e importantes, onde o tempo não tem vez, nem pressa. E entre os risos, beijos, olhares, silêncios, degustações, lembranças, confissões, eles se perderam. Aquele mar de dois. E cada um múltiplo em si mesmo, inundando um ao outro, invadindo com ondas que assustam, mas acalmam. Cada um sendo para o outro um farol, um porto seguro, um eco. E se olharam nos olhos, pelo espelho, e não sabiam o porquê sorriam. Por diversas vezes ela dizia que deveriam ir, era hora. O mundo lá fora gritava, precisavam voltar à realidade. Era cedo, ele dizia, havia tempo, precisavam provar ainda mais um do outro, o gosto era indescritível, diferente de tudo já provado. Como se postergar fosse tornar aquela noite eterna. E quando tomaram coragem, viram que era dia. E era tarde, e um desespero tomou conta dos dois. Medo de voltar à superfície, medo de não se afogar novamente naquele oceano. E saíram de lá, novamente embaraçados. E os olhos doeram por causa do sol. E no caminho até a casa dela, foi crescendo aquela interrogação no peito de cada um. Nunca entenderiam, e amariam para sempre aquela noite. Ele parou em frente ao prédio. Ela saiu do carro, relutou, voltou-se para ele e exclamou pausadamente “mil novecentos e noventa e um”. Ela fechou a porta, e tentou ainda rir, não fazer muito drama, porque ela não acreditava naquele drama. Ela não acreditava no tempo. Ela o viu assustado, e desejou que ele também fosse descrente. Cada um foi embora, novamente, com aquilo tudo escorrendo entre os dedos, de volta a superfície, mas eternamente afogados.



3)Gasoso

Olhavam para o mar agora. Do qual haviam saído há muito, mas nunca deveriam tê-lo feito. A água secou. E não sabiam se aquele seria o começo ou o fim do que estava por vir. Os olhares evitaram se encontrar, perdidos ainda nos desencontros do tempo que passou desde a última noite. Dos desentendimentos, das saudades, das pequenas frustrações. Ela pensava que era tudo mentira, ele não conseguia acreditar, nem saber o porquê. Ambos estranhavam o próprio comportamento, e o próprio fato de estarem ali. Ela ainda rígida, ele por vezes beijava seu ombro, enquanto dizia coisas embaraçadas. Ela abriu o vinho, que esperou tempos para ser bebido pelos dois. E beberam da mesma taça, misturando as salivas ainda de uma forma distante. E com o passar dos minutos, as palavras ditas foram sublimando a tensão, as dores, as preocupações e os porquês. O vinho diluiu as últimas pedrinhas de dúvidas. E como num sopro de um gigante, o céu se abriu acima deles por alguns instantes, mostrando as estrelas, e eles se lembraram das costas estreladas que beijaram, as costas que tinham começado a brilhar novamente. A lua resolveu aparecer por um momento, para ser a testemunha daquela noite, caso um dos dois resolvesse negar posteriormente que tudo tinha sido apenas um sonho. “Sabe que eu não posso me apaixonar por você né?” , “ Sabe que eu não posso apaixonar por você né?” ela responde, com a mesma pergunta, porque era o medo e o prazer dos dois. E então trocaram salivas novamente, mas sem taça, nem vinho. E andaram pela areia, pisando em estrelas, que brilhavam ao toque dos pés, e pensaram que era magia, ela viu-se bruxa, ele viu-se enfeitiçado. “Porque a areia brilha?”. Jamais entenderiam que era para iluminá-los, quando duvidassem daquilo que deveria ser. E mais tarde, nus. E mais tarde, ele com frio, ela molhada de mar, sentiram aquela liberdade novamente. E ainda mais tarde a pizza, o quarto, os desenhos que refletiam ela nele, os vinis, a pintura na parede. E sabiam que nada mais era tão duro, pois as noites dissolveram aqueles medos maiores, e que nada mais poderia escorrer entre os dedos, pois eles tinham tudo ali, envolta deles, flutuando. E todos aqueles encontros de almas ainda mais evidente, e todos aqueles passados que se cruzavam em determinado ponto, e todas as coincidências, e as mesmas alegorias, e todos os toques, os risos, os desesperos... tudo virou fumaça. E já não estava mais no controle de cada um, e não sabiam se isso era bom ou ruim. Porque tudo então foi lançado no ar, como para o universo. E tudo o que acontecera até então virou poeira que agora eles respiravam, que contaminava o ar. Poeira da brisa do mar da outra noite. Eles sabiam que algo começava a surgir, e assustava. Porque não era visível aos olhos, e nem palpável as mãos.



E o conto começa assim, onde termina. E este nunca há de acabar.




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Para você. Em agradecimento as três noites imemoriáveis. E quem sabe, as mil e uma noites, que ainda hão de vir...




R.L.

12 comentários:

Anônimo disse...

Nada de elogios. Apenas agradecimento pelas palavras que nos levam a um mundo mais interessante que a realidade. Sorte dos personagens. O mundo os inveja (ou, pelo menos, deveria). =)

d.m.

Camila Mancio. disse...

belo texto.

Jacqueline Strada disse...

As mesmas 3 fases do amor.
Sólido, quando uma pequena parte do coração espera o derretimento de um amor futuro.
Líquido, o início de uma paixão.
Gasoso, o gás do amor solto pelo mundo afora.
Afinal, todos merecem as 3 fases.
lindo! *-*

verônica hiller. disse...

com certeza eu nunca encontrarei, daqui por diante, texto tão absorto de detalhes e lirismo. absolutamente fantástico; a melhor coisa que me aconteceu nesse domingo à noite.

Rívia Petermann disse...

As mesma fases de várias transações - mas inigualáveis.

A leitura prende,e,como sempre, belas palavras...

Abraços!

shaaa disse...

um texto que te prende do começo ao fim,com um toque de irrealidade tão real que nos causa inveja.
três fases descrita da maneira mais perfeita.

lindo!!!

beijo

Fábio Monstro! disse...

Oi, Rice!
Bom te ver de novo. :)

Daniela Filipini disse...

Que encanto. Me prendi à cada palavra e adorei tudo o que li. Tão intenso, tão verdadeiro, e de certa forma, tão puro. São essas histórias que são bonitas de ler, mesmo que tenham um final triste. Adorei!

Julia Malaguti disse...

eu os invejo.

Caipirinha da Silva disse...

seu blog tem tudo a ver com o nosso.
gostei muito.
passa lá e toma umas doses.

http://www.mulheresquebebem.blogspot.com/

beijos!

Anônimo disse...

Li para você hoje:
_ " No passado sobreviveste porque escolheu não desistir. pOR QUE O MEDO HOJE? Os problemas de hoje não são maiores ou menores do que ontem são apenas diferentes"

Esse "diferente" é tão igual a você, que seria um desperdício não aproveitá-lo com toda coragem de uma pessoa que tem todo potencial para contemplar o amor.

Seja feliz!

Cristina

Thiago disse...

Lindo Ricelli! Suas palavras me agarram facilmente. To bobo com a sua capacidade de traduzir em palavras tantas sensações. Saudades de ti.