quinta-feira, 26 de março de 2009

A noiva

Uma menina. Em algum lugar. Por alguma razão: Ela era angustia, ela era pressa, ela era tudo ou nada. Um grande vazio. Um breve vazio, que a tomou por inteiro num curto espaço de tempo. Pouco tempo, sim, mas foi forte, foi pungente, suficiente para que ela tomasse uma decisão e não voltasse atrás por nada.
Maquiou-se, como para um casamento, e ia casar-se! Para sempre, decidiu. Não sabia se ria ou se chorava, estava feliz, estava triste...aliviada. Pintou os olhos borrando a cor prateada, sua mão tremia. Escolheu o vestido mais branco, mais puro, para sentir-se pura ao menos uma vez, ao menos no dia de seu casamento. Comprou flores, o quarto estava rodeado de flores: rosas, tulipas, cravos, lírios...lindas flores... murchas... ela esperou uma semana pra tomar a decisão mais importante se sua vida.
Pintou os lábios do vermelho mais vermelho, para dar cor de amor a boca, já que seu coração era cinzento. E a boca borrada, pois sua mão ainda tremia. O blush que passara nas bochechas foi inútil para encobrir o branco de sua pele. O temor acumulou na pele ao longo dos anos, e calcificado fez-lhe uma máscara sob o rosto, cujo um dia foi rosado, mas já se perdera sob esconderijo de neve e cinzas.
De cinzas era seu rosto, gélido, pálido, anêmico...e cinza eram também seus olhos, profundos, rasos e vazios.
As lágrimas de emoção no dia de seu casamento, eram mais fortes e ácidas do que o rímel a prova d’água. Filetes pretos corriam pelas bochechas, desenhando cataratas pelos ossos que saltavam de sua face como rochedos, duros rochedos, pedras na bochecha, pedras de uma vida.
Botou o véu por cima do rosto e dançou. Dançou sozinha no dia do seu casamento, ao som antigo e melancólico do vinil que rodava na vitrola empoeirada. A sinfonia era som de chuva na gravação antiga. Chovia lá fora e dentro dela formavam-se trovões, que a excitavam a cada lampejo.
E ela girava em torno da sua solidão, de mãos dadas com ela, sua madrinha de casamento. O vestido voava espalhando as teias de aranha das paredes que caiam aos pedaços, como grãos de arroz num dia de casamento. Ela dançou, esperando seu noivo, e em fim ele chega.
Uma longa espera, eternos conflitos internos. Paradoxos que nunca iam embora para deixar que ela rumasse por um caminho só. Estava cansada das bifurcações. Mas agora estava tudo selado, e nada a faria voltar atrás. Enfim, encontrou um lugar de paz e um ombro onde descansar.
As bênçãos eternas já haviam sido feitas, ela estava decidida. Só faltava então, o beijo. Um beijo doce, macio, quente e gélido. Apenas um último beijo, depois de tantos outros beijos, e ela escolheu beijar a morte.
O beijo da morte.
Pegou a seringa e injetou. Escolheu uma para matar cavalos, para ter certeza , mas no
máximo precisaria de uma dose para matar a saudade. Saudade de seus sorrisos. Decidiu, e já era tarde se quisesse voltar atrás, mas não queria, se sentia nas nuvens. Ela era paz, era esquecimento, era tudo e era nada.
Então os noivos trocaram as alianças e deram as mãos. Ela suspirou, profunda e aliviadamente...depois, sorriu... sorriu e foi feliz pra sempre.

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Conto escrito em maio de 2008 e reeditado hoje.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Paladar

No ácido da boca tua
Afogo-me
E escoa-me a saliva pelos lados
Queima-me a pele
Deforma meu sorriso

E o gosto salgado de teu corpo
Minha língua, teu suor
Minha boca, tuas lágrimas
Lágrimas de réptil

Com o cheiro amargo da pele tua
De teu de sexo
Enlouqueço
Afrodisíaco número um do mundo
Invade as narinas, meu frenesi

O encarar ardente dos olhos teus
Cegam-me como alfinetes
Validam a minha visão
Com gotas picantes desses filetes

Mas tu levaste o beijo ácido
O acre do cheiro
O salgado suor
Com teu olhar tácito

Perdeste o gosto
E deixou-me enfim
Degustando-te de longe
Insípido desolado!
Na sua doce partida...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Poema para a Deusa

Ah, mulher!
A Deusa que desceu a terra só pra me fazer delirar
Envolvendo-me com suas manhas e sua lábia
Delicada, feroz... invulgar!

Mulher!
Que me arranha as costas, que me faz sangrar os sentimentos
Há muito estancados...
Que me jura mil paixões e me tem assim, apaixonado.

Ah, Mulher!
Que nunca irei chegar perto de decifrar
Pois o máximo que chego a teus pés é admirar-te
Num devaneio de estética, de arte!

Mulher!
És de tudo a Rainha
Que dá a luz, que dá a vida
Mais um poder divino que só tu possui
Minha fada madrinha!

Ah, mulher!
Tu saíste de minha costela!
Pois sou o rascunho, e tu és a obra prima
Sois aperfeiçoada, evoluída, de corpo e mente
Sou a tentação de ajoelhar-me a teus pés
E render-me a tua sagaz serpente

Mulher!
Por que Deus não me fizeste também a tua imagem?
Por que sou rascunho e não mereci essas dádivas?
É que a função minha é admirar-te
Cultivar a ti, oh Deusa!
Fazendo de ti a minha rainha
E atingir a perfeição na tua beleza

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Sonhar

Esses últimos dias me fizerem refletir muito sobre a importância do sonho.
No mundo em que vivemos, a cada dia que passa fica mais dificil de acreditar num futuro
bonito, na bondade das pessoas, na paz e no amor.
Mas eu aprendi também que mesmo com tudo de podre que vemos hoje, um homem sem sonho e sem fé está no mesmo barco daqueles homens que empodrecem o mundo.
Um homem sem fé, é um homem sem vida!

R.
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Música: Sonho impossível
De Chico Buarque de Olanda/Maria Bethânia.



Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Coma

Quero clamar a minha loucura!
Afogá-la no fundo de minha garrafa
Para que caso a sanidade me ataque
Eu possa bebê-la outra vez!

Não farei como D.Sebastião
Vou gritar até o surdo dizer basta!
Os cristais se quebrarem
E os pássaros desistirem de cantar

Quero clamar a minha verdade!
Santificar a insanidade
Desses dias loucos na mesa sem bar

Não farei como D.Maria 1ª
Quero contrabandear idéias
Viver na dependência de sentir
Porque quem não sente é pedra!

Quero saciar a minha sede
Engolir um oceano de pensamentos
Entrar num coma de devaneios
De sentimentos...

Que as espumas flutuem!
E os anjos tortos da sombra venham me procurar
Que a negra Fulô tenha sonhos
Porque no meu mundo, vai cantar o sabiá!