segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Opus nº ?

Breve

Mas não tão breve

Quanto o tempo no qual rasga o céu

Uma estrela cadente


Breve

Mas não tão breve

Quantos os minutos congelados

Que precedem a morte


Muito breve é a vida

Este sopro no qual passam-se os dias.

Muito breve é o anoitecer

Esse piscar de olhos que precede o nascimento.


Mas não tão breve

Quanto as palavras eufóricas

Ou breve como os dias que nos trouxeram aqui

E nem tão rápido

Como todas as sensações que nos afloram a pele.


E não tão breve

Quanto o momento em que os olhos se tocam.

Pois é o profundo, largo e infinito

Silêncio....


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( Escrito durante o silêncio que se deu após a discussão da importância do mesmo. )

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Tu amanheces

Quando ele ainda está adormecido
Mas com insistência abre o céu
Pintando o azul de amarelo
E alaranjando o lençol que te cobre até os olhos

Quando o sereno ainda está flutuando, leve
E os pássaros começam a abrir as asas
E das tocas escuras saem pra cumprimentar o sol
Todas as criaturas já acordadas

Quando a terra desperta...
Eu ainda não me entreguei aos braços de Morfeu
Ele compreende que o sono não tem pressa
Se eu puder passar a noite a admirar-te

Minha deusa que agora volta das terras profundas do sonho
Ah, pra que descansar?
Eu tenho a morte toda pra isso...
Prefiro contemplar teu corpo nu estendido na cama
Que agora com o coração sorrindo,
Chamo de nossa.

Meu anseio é de caíres no sono e nunca mais acordar
De Morfeu me furar os olhos (já que estão sempre abertos)
E te levar em seus braços...
Mas tu despertas... tu amanheces...
E suspiro tranqüilo, agora sim...
Sorria e me dê um beijo
Que vou lá em baixo, preparar o nosso café.

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( Feita durante a viajem, ainda em construção... estou há muito tempo sem inspiração, mas ainda me restam algumas fagulhas, assim, construí esse rascunho.)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O despertar

Amor que dorme
Profundamente entre lençóis de esquecimento
Que se esconde entre as plumas
Da inocência e dos erros imaturos de amor juvenil

Amor que é silencio
Há muito esquecido
Em uma fortaleza de medos e prisão soturna
Por entre as pedras escuras deste castelo
Enxerga os filetes de luz que invadem as trevas
Através de rachaduras das boas recordações

Amor apagado
Na profunda ardência do reencontro
Deixa reascender a vela da minha prece
E deixa alastrar o fogo suave pelo corpo
Com um cuidado sutil de uma cicatriz de amor

Amor ressequido
Molha-o com lagrimas de compreensão
E umedece-o com um beijo
De um renascido amor

Como a princesa adormecida
Que acorda de seu sono profundo
Que façamos abrir as feridas estancadas
Penetrá-las e curá-las
Para que delas não sobrem nem lembranças

E como um jardim secreto
Abandonado, que guarda debaixo dos galhos secos
A preciosa seiva
Mas, que ainda supimpa
Sustenta vida em todas as suas formas de amor

Agora é só recomeço
E tudo é só esperança
Como a fênix que renasce das cinzas...
Das cinzas de um sentimento esfarelado
Renasce o amor
Belo e rejuvenescido
Em sua mais bela e pura manifestação
De amor...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Expressão

O meu lirismo é feito de amor
Seria exagero dizer que ele é feito de dor...
Também há nele a dor, claro
Mas ele é feito do riso
Do pranto
Da batalha...
Feito de flor!
Feito do ar, do abstrato
Da mais pura e irracional manifestação
Daquilo que bate no peito

Meu lirismo é libertação
É o medo de não amar
E de não sentir
É melodia suave numa varanda de frente pro mar
O lirismo difícil e pungente dos bêbados...
Dos perdidos...dos boêmios!

Mas também, é o lirismo da criança que estende uma flor
O lirismo da mãe que abraça e que briga
O lirismo do louco incompreendido
Do médico, do arquiteto, do músico e do artista!

É todo esse lirismo que há em mim
Do tudo ou nada
Do agora ou nunca
Da euforia e da lágrima
Da espera e da chegada

Ele é feito de vida
De histórias, de caminhos...
Ele está vivo
E é a pessoa que enxerga o mundo como ele é:
Belo, harmônico...lírico!

Mas para não ter de recitar esse poema
Toda vez que me perguntarem...
Eu só tenho uma coisa a declarar:
O meu lirismo é feito de AMOR!

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Está faltando algo ainda nesse poema....

quinta-feira, 26 de março de 2009

A noiva

Uma menina. Em algum lugar. Por alguma razão: Ela era angustia, ela era pressa, ela era tudo ou nada. Um grande vazio. Um breve vazio, que a tomou por inteiro num curto espaço de tempo. Pouco tempo, sim, mas foi forte, foi pungente, suficiente para que ela tomasse uma decisão e não voltasse atrás por nada.
Maquiou-se, como para um casamento, e ia casar-se! Para sempre, decidiu. Não sabia se ria ou se chorava, estava feliz, estava triste...aliviada. Pintou os olhos borrando a cor prateada, sua mão tremia. Escolheu o vestido mais branco, mais puro, para sentir-se pura ao menos uma vez, ao menos no dia de seu casamento. Comprou flores, o quarto estava rodeado de flores: rosas, tulipas, cravos, lírios...lindas flores... murchas... ela esperou uma semana pra tomar a decisão mais importante se sua vida.
Pintou os lábios do vermelho mais vermelho, para dar cor de amor a boca, já que seu coração era cinzento. E a boca borrada, pois sua mão ainda tremia. O blush que passara nas bochechas foi inútil para encobrir o branco de sua pele. O temor acumulou na pele ao longo dos anos, e calcificado fez-lhe uma máscara sob o rosto, cujo um dia foi rosado, mas já se perdera sob esconderijo de neve e cinzas.
De cinzas era seu rosto, gélido, pálido, anêmico...e cinza eram também seus olhos, profundos, rasos e vazios.
As lágrimas de emoção no dia de seu casamento, eram mais fortes e ácidas do que o rímel a prova d’água. Filetes pretos corriam pelas bochechas, desenhando cataratas pelos ossos que saltavam de sua face como rochedos, duros rochedos, pedras na bochecha, pedras de uma vida.
Botou o véu por cima do rosto e dançou. Dançou sozinha no dia do seu casamento, ao som antigo e melancólico do vinil que rodava na vitrola empoeirada. A sinfonia era som de chuva na gravação antiga. Chovia lá fora e dentro dela formavam-se trovões, que a excitavam a cada lampejo.
E ela girava em torno da sua solidão, de mãos dadas com ela, sua madrinha de casamento. O vestido voava espalhando as teias de aranha das paredes que caiam aos pedaços, como grãos de arroz num dia de casamento. Ela dançou, esperando seu noivo, e em fim ele chega.
Uma longa espera, eternos conflitos internos. Paradoxos que nunca iam embora para deixar que ela rumasse por um caminho só. Estava cansada das bifurcações. Mas agora estava tudo selado, e nada a faria voltar atrás. Enfim, encontrou um lugar de paz e um ombro onde descansar.
As bênçãos eternas já haviam sido feitas, ela estava decidida. Só faltava então, o beijo. Um beijo doce, macio, quente e gélido. Apenas um último beijo, depois de tantos outros beijos, e ela escolheu beijar a morte.
O beijo da morte.
Pegou a seringa e injetou. Escolheu uma para matar cavalos, para ter certeza , mas no
máximo precisaria de uma dose para matar a saudade. Saudade de seus sorrisos. Decidiu, e já era tarde se quisesse voltar atrás, mas não queria, se sentia nas nuvens. Ela era paz, era esquecimento, era tudo e era nada.
Então os noivos trocaram as alianças e deram as mãos. Ela suspirou, profunda e aliviadamente...depois, sorriu... sorriu e foi feliz pra sempre.

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Conto escrito em maio de 2008 e reeditado hoje.